
A equipa dos entrevistadores do Quebra-Mar, desta vez formada pela Sónia (8°A), pelo Nelson e pelo Tiago (8°C) estiveram um dia destes em casa do Dr. Joaquim Magalhães, que é o patrono desta escola e pessoa muitíssimo estimada e querida entre nós, sempre igual a si próprio, conforme o conhecemos já lá vão alguns anitos e por vezes o temíamos quando as travessuras faziam prever a repreensão mas era o amigo que ali estava, o companheiro da rapaziada. Para nós foi um prazer ouvi-lo e tê-lo presente neste primeiro número do jornal da escola. Bem haja!
J. Quebra-Mar – Como se sente por ser patrono de uma escola?
Dr. Joaquim Magalhães – Olhe isso é uma atrapalhação… é uma atrapalhação porque isso foi um reconhecimento por parte dos professores e membros da Câmara Municipal que foram alunos do Liceu… e eu fui professor deste Liceu durante 39 ou 40 anos, já não me lembro bem… e trabalhei muito e muito com a rapaziada, mesmo muito! …durante 18 anos ensaiei peças de teatro, uma em cada ano, por vezes duas… com os alunos do 6°ano.

Sónia – …e eram peças do Liceu?
J.M. – Eram peças do Liceu… eram obras do nosso teatro lírico, do teatro espanhol, do teatro de Gil Vicente, de Garret, de Júlio Dinis… de maneira que eles acharam que eu era um sujeito que era amigo dos estudantes e portanto, tal amigo era que fui…durante anos com as excursões deles, à volta de Portugal.
E nesse trabalho todo, não ganhava nem mais um tostão, era de dedicação aos moços até ao ponto de me acontecer isto…de chegar ao fim dos ensaios e quando eram preciso ensaiar às vezes à noite – (os pais) telefonavam-me de véspera e eu é que ia levar as meninas, levá-las a casa. Os pais confiavam em mim e essa confiança que eu consegui dos pais dos alunos, dos colegas, fizeram que eles, depois de eu me reformar… havia essa coisa de pôr nomes, ora quem há-de ser padrinho desta escola, padrinho daquela escola… quem há-de ser … olha esse fulano…por acaso sou o único vivo que é padrinho de uma escola. Só no campo desportivo é que acontece a mesma coisa, a Rosa Mota é patrona do Pavilhão do Porto, lá da minha terra e o Carlos Lopes é patrono do Pavilhão de Lisboa… como é que se chama aquilo, é Pavilhão Desportivo, não sei quê…
Mas claro sinto-me reconhecido por isso, mas isso é uma responsabilidade muito grande. Eu não posso fazer patifaria nenhuma senão… sou um mau exemplo.
Q.M. Fale-nos agora um pouco da sua vida.
J.M. – Nasci no Porto, na freguesia da Sé, na Rua Fim de Vila, uma rua que tem um nome de quando aquilo ainda não era cidade, reparem bem. Deve ser um dos nomes mais antigos que há lá na minha terra. Sou tripeiro…
Sónia- Tripeiro?
J.M.- Ah, é uma anedota histórica… Fiz o meu curso no Liceu, lá no Porto e, ainda no outro dia estive a abrir a caderneta…dei duas faltas (duas horas) em sete anos! Sim, em sete anos faltei a duas aulas!… Não é feio.
Fui para a Faculdade de Letras, fiz exame a todas as cadeiras, nunca fui dispensado de nenhum exame e era bom aluno! Deram-me 16 no final… Entre outras cadeiras fiz Filologia Portuguesa que incluía o Latim. Não esquecer que a língua portuguesa é o latim falado por nós… estamos aqui a falar latim… Vocês não estudam latim mas falam português e o português é o latim que se fala em Portugal. Fiz o exame de Estado em Lisboa, preparava-me para ser professor. Foi aí que eu tive a minha melhor nota, 17 valores. Por causa disso o Director Geral do Ensino Secundário pregou comigo aqui em Faro. Não contava nunca vir para cá. Casei cá e fui para o Funchal efectivar-me.
Quando me efectivei, abriu aqui uma vaga para professor efectivo e vim para cá em 1935. Depois do 25 de Abril de 1974 não me sanearam, até fui escolhido para ser o Presidente da Comissão de Gestão, para mim isso é um título bonito, é uma condecoração que eu tenho…

Nelson – Quer contar-nos agora a anedota sobre os tripeiros?…
J.M. – Ah, os tripeiros._ é uma história engraçada… Quando foi da tomada de Ceuta, o Infante D. Henrique, que foi baptizado na mesma freguesia que eu, na freguesia da Sé, no Porto, só com a diferença que ele foi em 1394 e eu em 1909… Esse homem tinha uma coisa muito bonita que está escrito num monumentozinho ao pé do Liceu, vocês ainda não repararam(?), “Talant de bien faire” que era a divisa do Infante D. Henrique, “talant” quer dizer “talante” ou seja “vontade de fazer bem”, de fazer bem as coisas que têm de ser feitas…Este gosto de perfeição é muito bom. Ora que é que aconteceu? É que o Infante era do Porto e, organizou lá uma esquadra… Vieram 70 navios do Porto para ajudarem à conquista de Ceuta… quais eram os mantimentos que levavam os marinheiros nesse tempo nos navios?
Sónia – Tripas…
J.M. – Não… Carne limpa. A carne com osso…
Tiago – Sem gorduras…
J.M. – …nem gorduras, nem tripas, nem bofes, nem rins… isso é que chamavam tripas e que ficou lá, porque o resto é que podia ser metido em salgadeiras. Para fornecer 70 navios …era preciso levar mantimentos … porque uma das coisas que me faz impressão ainda hoje, é saber o que é que comiam… os que foram de Portugal até à Índia! Andavam… meses…
Tiago – Bolachas, não?
J.M.- Ah, bolachas… só comiam peixe quando não havia vento, os navios paravam e pescavam qualquer coisa e por isso aconteciam doenças tremendas! Vocês já ouviram falar no escorbuto? Era por falta dos alimentos verdes, das verduras que são indispensáveis ao nosso organismo.
Nelson – Podiam comer algas!?
J.M. – Às vezes…
Tiago – Há uma história engraçada. Os que tinham escorbuto, eles expulsavam-nos do navio, punham-nos num bote e mandavam-nos embora… e dois desses homens viram musgo no barco. Como estavam esfomeados, comeram o musgo e ficaram curados…
J.M. – Isso é anedota mas tem razão de ser. E verdade, sim senhor. Era assim. Foi por patriotismo e foi por esse patriotismo que lá íamos. Lá na minha terra somos muito patriotas e isso tem uma razão de ser, porque a palavra Portugal deriva de Portucale que era o nome da terra do outro lado do rio, que é Gaia. A letra seria Portogaia mas não, é Portugal. O nome nasceu lá…
Sónia – Foi de lá que surgiram os descobrimentos?…
J.M. – Não, o Infante D. Henrique … não descobriu nada propriamente, nem era navegador. Os franceses chamam-no “Le Navigateur” mas ele não era navegador…Ele o que promoveu foi as navegações… tinha um sonho…
Os portugueses foram uns analfabetos que inventaram a língua portuguesa! É verdade! Ouvindo os romanos falar o latim, quiseram imitá-los e fizeram o português, depois inventaram Portugal. Vocês olham para o mapa e não vêm nenhuma fronteira… Portugal é uma invenção dos portugueses… e é isso uma coisa que hoje nos orgulha muito…
Há uma coisa que as pessoas esquecem é que, a última parte que foi integrada em Portugal, é aqui o Algarve e, é a única que constitui uma verdadeira região de todo o país. Andam para aí a discutir regionalização, no fundo, só o Algarve é que tem. Só o Algarve tem uma fronteira: mar por um lado, mar por outro, rio por outro e serra por outro. Historicamente o Algarve viveu como uma espécie de ilha. Até ao Séc. XIX as comunicações com o resto do país era por mar, estradas não havia. Só por mar! A longa costa marítima do nosso país sempre exerceu uma grande atracção das nossas gentes pelo mar. Hoje atrai por razões de divertimento… Por isso as descobertas foram feitas por navegação para descobrir os mares. Razão pela qual vamos ter para o ano a Exposição…
Tiago – A Expo’98.
J.M. – Eu gosto mais de dizer Exposição 98. Isso é um francesismo e um anglicismo. Expo, não é nada, isto não é português! Expo!… expo… ex..pó, …terra…cinza…e lama…O ex, deve-se ler (es) e não (exc), atenção!
Os franceses chamaram “Exposition” às exposições todas que eles fizeram em França durante anos. Vamos encurtar a palavra, para quê?
Q.M. – Sabemos que foi a pessoa que descobriu António Aleixo. Conte-nos como isso aconteceu.
J.M. – O mais bonito da minha história é isso! Conheci António Aleixo nuns jogos florais aqui em Faro. Nesses jogos ganhou um premiozinho, um 4° lugar. Era um homem magro, ajeitado dentro dum fatinho que eu soube mais tarde tinha sido emprestado, uma gravatinha… Era cauteleiro e depois fiquei a saber que ele tinha nascido em Vila Real de Santo António. Veio para Loulé, que era a terra do pai e, criou-se em Loulé. Fez uma 3ª classe só. Aprendeu a ler mal, mas lia, e, a escrever mal e continuou sempre a escrever com muita dificuldade, com muitos erros de ortografia.

Em 1937, foi aí que eu o conheci, não me apercebi que ele era um poeta de categoria. Só mais tarde, em 1942, é que eu comecei a conviver com ele e então é que lhe fiz a proposta “Vamos lá juntar as suas quadrinhas e vamos fazer um livrinho” e foi então que ele me chamou o seu secretário:
“Não há nenhum milionário
Que seja tão feliz como eu
Que tenho como secretário
Um professor de Liceu“.
E uma outra também com piada:
“Um tal Aleixo poeta
Que dizem viveu em Loulé
Era uma pessoa incompleta
Sem o Magalhães ao pé“
A tragédia (a tuberculose) foi depois de publicado o livro, em 1943. Ele começou a vendê-lo no dia 25 de Abril e ainda juntou muito dinheirinho, porque as pessoas davam sete e quinhentos (7$50), que era o que custava o livrinho e davam às vezes cinquenta ou vinte escudos. Os mais ricos davam mais dinheiro. A ele, coitado, fazia-lhe jeito. Sofria de uma tuberculose e foi transferido para o sanatório de Coimbra. Lá encontrou um amigo, também meu, Tossan, que o entusiasmou a escrever teatro, escrever coisas de teatro…
António Aleixo morreu em 1949. A sua obra entrou no conhecimento de toda a gente, as coisas dele foram representadas e como era um homem que tinha um pensamento adequado ao 25 de Abril foi nesta data que ele começou a ser ainda mais conhecido. Hoje vem nas Histórias da Literatura, vem na Enciclopédia, vem nas Antologias, chegou ao Brasil…
O encontro com este poeta foi de facto uma das coisas mais bonitas que aconteceu na minha vida…
Q.M. – O jornal acabou de nascer e foi baptizado com o nome de Quebra-Mar.
J.M. – Quebra-Mar? Quebra-Mar… esse nome é bonito!
Q.M.- Como pensa que seria a grafia correcta: a palavra unida ou separada?
J.M. – Hum, isso agora é que eu não sei. Vamos ver o dicionário … um algarvio, natural de Faro, José Pedro Machado, vamos lá ver como é que ele escreve… os livros são para isso… e nós quando não sabemos vamos procurar saber. Isto é uma coisa que eu costumo dizer a vocês, sempre. Primeiro, antes de perguntar, vão vocês tentar responder…
Nelson – Nós achamos que deveria aparecer tudo junto…
J.M. – …a escola é aprender. Querem ouvir uma coisa bonita? Vou dar-lhes uma definição de escola feita pelo poeta Aleixo:
“…E assim, lição por lição,
O que aos poucos aprendemos
E outros a outros daremos,
E outros a outros darão“
A escola é isto, é esta continuidade…
Eu, por exemplo, agora tenho dúvidas em relação à resposta… vou ver quebra-mar, procurar no dicionário… quebra, quebra … quebrantar… que-branto…, quebra-rocha, quebra-pedra… olha não se encontra! Quebra-cabeça…, quebra-mar, não encontro… ah, está aqui. Ora cá está, pronto! Quebra-Mar!
Q.M.- O que pensa do jornal de escola?
J.M. – Olha, eu acho que tem muita piada porque quando eu andava no 5°ano do Liceu, meteu-se-me na cabeça fazer um jornal que era feito neste papel quadriculado que vocês usam na Matemática e chamei-lhe “O Sol”. Nesse tempo não tínhamos canetas a tinta… era uma pena. Comprávamos anilinas, eu gostava de anilina roxa que dissolvia na água e isso é que era a tinta que era utilizada na caneta com aparo.
Alguns acharam piada e inventaram outro jornal “A Terra”, outro arranjou “A Lua”, depois foi o Sistema solar todo! Mostrávamos tudo ao professor de Português, prof. Pires de Lima…
De modo que acho muito engraçado, eu vou ver se escrevo uma coizinha para vocês, eu vou fazer um escrito zinho e se puder vou lá levar à escola. Ir aquela escola sempre foi uma chatice…sabem porquê? Aquela entrada, .. com as obras. Agora já entram pela frente? Ainda estão a fazer as obras?
Nelson – As ruas já estão algumas arranjadas…
J.M. – Eu vou ver se consigo fazer a minha ginástica e se vou lá. Vou lá levar um escritozinho sobre o que é uma escola, o que eu acho que é, lembrar esta brincadeira da escola que é onde se aprende..
E com estas palavras, a equipa de reportagem despediu-se deste mestre feito da simplicidade da palavra e do saber. Neste artigo tivemos o cuidado de manter o tom coloquial e um pouco divagador que caracteriza a sua palavra .
■ Sónia 8°A, Nelson e Tiago 8°C
Quebra-Mar – Nº 1 – Dezembro de 1997 – Escola E. B. 2/3 Dr. Joaquim Magalhães
Clique nas imagens acima para ver a entrevista num ficheiro pdf (com as páginas 1 a 5 de 16 do QM1)
