{"id":249,"date":"2019-04-17T14:07:00","date_gmt":"2019-04-17T14:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/?p=249"},"modified":"2025-08-29T00:58:25","modified_gmt":"2025-08-29T00:58:25","slug":"entrevista-a-joaquim-magalhaes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/2019\/04\/17\/entrevista-a-joaquim-magalhaes\/","title":{"rendered":"Entrevista a Joaquim Magalh\u00e3es"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Quebra-Mar-n1-paginas1a5de16-1997.pdf\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"367\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1024x367.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-257\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1024x367.jpg 1024w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-300x107.jpg 300w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-768x275.jpg 768w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1536x550.jpg 1536w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_.jpg 1834w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"119\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03imagem1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-250\" style=\"width:416px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03imagem1.jpg 500w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03imagem1-300x71.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A equipa dos entrevistadores do Quebra-Mar, desta vez formada pela S\u00f3nia (8\u00b0A), pelo Nelson e pelo Tiago (8\u00b0C) estiveram um dia destes em casa do Dr. Joaquim Magalh\u00e3es, que \u00e9 o patrono desta escola e pessoa muit\u00edssimo estimada e querida entre n\u00f3s, sempre igual a si pr\u00f3prio, conforme o conhecemos j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o alguns anitos e por vezes o tem\u00edamos quando as travessuras faziam prever a repreens\u00e3o mas era o amigo que ali estava, o companheiro da rapaziada. Para n\u00f3s foi um prazer ouvi-lo e t\u00ea-lo presente neste primeiro n\u00famero do jornal da escola. Bem haja!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J. Quebra-Mar &#8211; Como se sente por ser patrono de uma escola?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;<strong>Dr. Joaquim Magalh\u00e3es &#8211;<\/strong> Olhe isso \u00e9 uma atrapalha\u00e7\u00e3o&#8230; \u00e9 uma atrapalha\u00e7\u00e3o porque isso foi um reconhecimento por parte dos professores e membros da C\u00e2mara Municipal que foram alunos do Liceu&#8230; e eu fui professor deste Liceu durante 39 ou 40 anos, j\u00e1 n\u00e3o me lembro bem&#8230; e trabalhei muito e muito com a rapaziada, mesmo muito! &#8230;durante 18 anos ensaiei pe\u00e7as de teatro, uma em cada ano, por vezes duas&#8230; com os alunos do 6\u00b0ano.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"599\" height=\"500\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03foto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-251\" style=\"width:391px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03foto.jpg 599w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-03foto-300x250.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00f3nia &#8211;<\/strong> &#8230;e eram pe\u00e7as do Liceu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Eram pe\u00e7as do Liceu&#8230; eram obras do nosso teatro l\u00edrico, do teatro espanhol, do teatro de Gil Vicente, de Garret, de J\u00falio Dinis&#8230; de maneira que eles acharam que eu era um sujeito que era amigo dos estudantes e portanto, tal amigo era que fui&#8230;durante anos com as excurs\u00f5es deles, \u00e0 volta de Portugal.<br>E nesse trabalho todo, n\u00e3o ganhava nem mais um tost\u00e3o, era de dedica\u00e7\u00e3o aos mo\u00e7os at\u00e9 ao ponto de me acontecer isto&#8230;de chegar ao fim dos ensaios e quando eram preciso ensaiar \u00e0s vezes \u00e0 noite &#8211; (os pais) telefonavam-me de v\u00e9spera e eu \u00e9 que ia levar as meninas, lev\u00e1-las a casa. Os pais confiavam em mim e essa confian\u00e7a que eu consegui dos pais dos alunos, dos colegas, fizeram que eles, depois de eu me reformar&#8230; havia essa coisa de p\u00f4r nomes, ora quem h\u00e1-de ser padrinho desta escola, padrinho daquela escola&#8230; quem h\u00e1-de ser &#8230; olha esse fulano&#8230;por acaso sou o \u00fanico vivo que \u00e9 padrinho de uma escola. S\u00f3 no campo desportivo \u00e9 que acontece a mesma coisa, a Rosa Mota \u00e9 patrona do Pavilh\u00e3o do Porto, l\u00e1 da minha terra e o Carlos Lopes \u00e9 patrono do Pavilh\u00e3o de Lisboa&#8230; como \u00e9 que se chama aquilo, \u00e9 Pavilh\u00e3o Desportivo, n\u00e3o sei qu\u00ea&#8230;<br>Mas claro sinto-me reconhecido por isso, mas isso \u00e9 uma responsabilidade muito grande. Eu n\u00e3o posso fazer patifaria nenhuma sen\u00e3o&#8230; sou um mau exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&nbsp;Q.M. Fale-nos agora um pouco da sua vida.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Nasci no Porto, na freguesia da S\u00e9, na Rua Fim de Vila, uma rua que tem um nome de quando aquilo ainda n\u00e3o era cidade, reparem bem. Deve ser um dos nomes mais antigos que h\u00e1 l\u00e1 na minha terra. Sou tripeiro&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00f3nia- Tripeiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M.-<\/strong> Ah, \u00e9 uma anedota hist\u00f3rica&#8230; Fiz o meu curso no Liceu, l\u00e1 no Porto e, ainda no outro dia estive a abrir a caderneta&#8230;dei duas faltas (duas horas) em sete anos! Sim, em sete anos faltei a duas aulas!&#8230; N\u00e3o \u00e9 feio.<br>Fui para a Faculdade de Letras, fiz exame a todas as cadeiras, nunca fui dispensado de nenhum exame e era bom aluno! Deram-me 16 no final&#8230; Entre outras cadeiras fiz Filologia Portuguesa que inclu\u00eda o Latim. N\u00e3o esquecer que a l\u00edngua portuguesa \u00e9 o latim falado por n\u00f3s&#8230; estamos aqui a falar latim&#8230; Voc\u00eas n\u00e3o estudam latim mas falam portugu\u00eas e o portugu\u00eas \u00e9 o latim que se fala em Portugal. Fiz o exame de Estado em Lisboa, preparava-me para ser professor. Foi a\u00ed que eu tive a minha melhor nota, 17 valores. Por causa disso o Director Geral do Ensino Secund\u00e1rio pregou comigo aqui em Faro. N\u00e3o contava nunca vir para c\u00e1. Casei c\u00e1 e fui para o Funchal efectivar-me.<br>Quando me efectivei, abriu aqui uma vaga para professor efectivo e vim para c\u00e1 em 1935. Depois do 25 de Abril de 1974 n\u00e3o me sanearam, at\u00e9 fui escolhido para ser o Presidente da Comiss\u00e3o de Gest\u00e3o, para mim isso \u00e9 um t\u00edtulo bonito, \u00e9 uma condecora\u00e7\u00e3o que eu tenho&#8230;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"554\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-04foto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-252\" style=\"width:323px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-04foto.jpg 500w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-04foto-271x300.jpg 271w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nelson &#8211;<\/strong> Quer contar-nos agora a anedota sobre os tripeiros?&#8230;<br><br><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Ah, os tripeiros._ \u00e9 uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada&#8230; Quando foi da tomada de Ceuta, o Infante D. Henrique, que foi baptizado na mesma freguesia que eu, na freguesia da S\u00e9, no Porto, s\u00f3 com a diferen\u00e7a que ele foi em 1394 e eu em 1909&#8230; Esse homem tinha uma coisa muito bonita que est\u00e1 escrito num monumentozinho ao p\u00e9 do Liceu, voc\u00eas ainda n\u00e3o repararam(?), &#8220;Talant de bien faire&#8221; que era a divisa do Infante D. Henrique, &#8220;talant&#8221; quer dizer &#8220;talante&#8221; ou seja &#8220;vontade de fazer bem&#8221;, de fazer bem as coisas que t\u00eam de ser feitas&#8230;Este gosto de perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 muito bom. Ora que \u00e9 que aconteceu? \u00c9 que o Infante era do Porto e, organizou l\u00e1 uma esquadra&#8230; Vieram 70 navios do Porto para ajudarem \u00e0 conquista de Ceuta&#8230; quais eram os mantimentos que levavam os marinheiros nesse tempo nos navios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00f3nia &#8211; Tripas&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> N\u00e3o&#8230; Carne limpa. A carne com osso&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tiago &#8211; Sem gorduras&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> &#8230;nem gorduras, nem tripas, nem bofes, nem rins&#8230; isso \u00e9 que chamavam tripas e que ficou l\u00e1, porque o resto \u00e9 que podia ser metido em salgadeiras. Para fornecer 70 navios &#8230;era preciso levar mantimentos &#8230; porque uma das coisas que me faz impress\u00e3o ainda hoje, \u00e9 saber o que \u00e9 que comiam&#8230; os que foram de Portugal at\u00e9 \u00e0 \u00cdndia! Andavam&#8230; meses&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tiago &#8211;<\/strong> Bolachas, n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M.-<\/strong> Ah, bolachas&#8230; s\u00f3 comiam peixe quando n\u00e3o havia vento, os navios paravam e pescavam qualquer coisa e por isso aconteciam doen\u00e7as tremendas! Voc\u00eas j\u00e1 ouviram falar no escorbuto? Era por falta dos alimentos verdes, das verduras que s\u00e3o indispens\u00e1veis ao nosso organismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nelson &#8211;<\/strong> Podiam comer algas!?<br><br><strong>J.M. &#8211;<\/strong> \u00c0s vezes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tiago &#8211;<\/strong> H\u00e1 uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada. Os que tinham escorbuto, eles expulsavam-nos do navio, punham-nos num bote e mandavam-nos embora&#8230; e dois desses homens viram musgo no barco. Como estavam esfomeados, comeram o musgo e ficaram curados&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Isso \u00e9 anedota mas tem raz\u00e3o de ser. E verdade, sim senhor. Era assim. Foi por patriotismo e foi por esse patriotismo que l\u00e1 \u00edamos. L\u00e1 na minha terra somos muito patriotas e isso tem uma raz\u00e3o de ser, porque a palavra Portugal deriva de Portucale que era o nome da terra do outro lado do rio, que \u00e9 Gaia. A letra seria Portogaia mas n\u00e3o, \u00e9 Portugal. O nome nasceu l\u00e1&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00f3nia &#8211;<\/strong> Foi de l\u00e1 que surgiram os descobrimentos?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> N\u00e3o, o Infante D. Henrique &#8230; n\u00e3o descobriu nada propriamente, nem era navegador. Os franceses chamam-no &#8220;Le Navigateur&#8221; mas ele n\u00e3o era navegador&#8230;Ele o que promoveu foi as navega\u00e7\u00f5es&#8230; tinha um sonho&#8230;<br>Os portugueses foram uns analfabetos que inventaram a l\u00edngua portuguesa! \u00c9 verdade! Ouvindo os romanos falar o latim, quiseram imit\u00e1-los e fizeram o portugu\u00eas, depois inventaram Portugal. Voc\u00eas olham para o mapa e n\u00e3o v\u00eam nenhuma fronteira&#8230; Portugal \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o dos portugueses&#8230; e \u00e9 isso uma coisa que hoje nos orgulha muito&#8230;<br>H\u00e1 uma coisa que as pessoas esquecem \u00e9 que, a \u00faltima parte que foi integrada em Portugal, \u00e9 aqui o Algarve e, \u00e9 a \u00fanica que constitui uma verdadeira regi\u00e3o de todo o pa\u00eds. Andam para a\u00ed a discutir regionaliza\u00e7\u00e3o, no fundo, s\u00f3 o Algarve \u00e9 que tem. S\u00f3 o Algarve tem uma fronteira: mar por um lado, mar por outro, rio por outro e serra por outro. Historicamente o Algarve viveu como uma esp\u00e9cie de ilha. At\u00e9 ao S\u00e9c. XIX as comunica\u00e7\u00f5es com o resto do pa\u00eds era por mar, estradas n\u00e3o havia. S\u00f3 por mar! A longa costa mar\u00edtima do nosso pa\u00eds sempre exerceu uma grande atrac\u00e7\u00e3o das nossas gentes pelo mar. Hoje atrai por raz\u00f5es de divertimento&#8230; Por isso as descobertas foram feitas por navega\u00e7\u00e3o para descobrir os mares. Raz\u00e3o pela qual vamos ter para o ano a Exposi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tiago &#8211;<\/strong> A Expo&#8217;98.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Eu gosto mais de dizer Exposi\u00e7\u00e3o 98. Isso \u00e9 um francesismo e um anglicismo. Expo, n\u00e3o \u00e9 nada, isto n\u00e3o \u00e9 portugu\u00eas! Expo!&#8230; expo&#8230; ex..p\u00f3, &#8230;terra&#8230;cinza&#8230;e lama&#8230;O ex, deve-se ler (es) e n\u00e3o (exc), aten\u00e7\u00e3o!<br>Os franceses chamaram &#8220;Exposition&#8221; \u00e0s exposi\u00e7\u00f5es todas que eles fizeram em Fran\u00e7a durante anos. Vamos encurtar a palavra, para qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Q.M. &#8211; Sabemos que foi a pessoa que descobriu Ant\u00f3nio Aleixo. Conte-nos como isso aconteceu.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> O mais bonito da minha hist\u00f3ria \u00e9 isso! Conheci Ant\u00f3nio Aleixo nuns jogos florais aqui em Faro. Nesses jogos ganhou um premiozinho, um 4\u00b0 lugar. Era um homem magro, ajeitado dentro dum fatinho que eu soube mais tarde tinha sido emprestado, uma gravatinha&#8230; Era cauteleiro e depois fiquei a saber que ele tinha nascido em Vila Real de Santo Ant\u00f3nio. Veio para Loul\u00e9, que era a terra do pai e, criou-se em Loul\u00e9. Fez uma 3\u00aa classe s\u00f3. Aprendeu a ler mal, mas lia, e, a escrever mal e continuou sempre a escrever com muita dificuldade, com muitos erros de ortografia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"780\" height=\"149\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-imagem4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-253\" style=\"width:284px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-imagem4.jpg 780w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-imagem4-300x57.jpg 300w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Jornal-Quebra-Mar-1997-n1-EscolaJoaquimMagalhaes-imagem4-768x147.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 780px) 100vw, 780px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1937, foi a\u00ed que eu o conheci, n\u00e3o me apercebi que ele era um poeta de categoria. S\u00f3 mais tarde, em 1942, \u00e9 que eu comecei a conviver com ele e ent\u00e3o \u00e9 que lhe fiz a proposta &#8220;Vamos l\u00e1 juntar as suas quadrinhas e vamos fazer um livrinho&#8221; e foi ent\u00e3o que ele me chamou o seu secret\u00e1rio:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;<strong>N\u00e3o h\u00e1 nenhum milion\u00e1rio<br>Que seja t\u00e3o feliz como eu<br>Que tenho como secret\u00e1rio<br>Um professor de Liceu<\/strong>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E uma outra tamb\u00e9m com piada:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;<strong>Um tal Aleixo poeta<br>Que dizem viveu em Loul\u00e9<br>Era uma pessoa incompleta<br>Sem o Magalh\u00e3es ao p\u00e9<\/strong>&#8220;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trag\u00e9dia (a tuberculose) foi depois de publicado o livro, em 1943. Ele come\u00e7ou a vend\u00ea-lo no dia 25 de Abril e ainda juntou muito dinheirinho, porque as pessoas davam sete e quinhentos (7$50), que era o que custava o livrinho e davam \u00e0s vezes cinquenta ou vinte escudos. Os mais ricos davam mais dinheiro. A ele, coitado, fazia-lhe jeito. Sofria de uma tuberculose e foi transferido para o sanat\u00f3rio de Coimbra. L\u00e1 encontrou um amigo, tamb\u00e9m meu, Tossan, que o entusiasmou a escrever teatro, escrever coisas de teatro&#8230;<br>Ant\u00f3nio Aleixo morreu em 1949. A sua obra entrou no conhecimento de toda a gente, as coisas dele foram representadas e como era um homem que tinha um pensamento adequado ao 25 de Abril foi nesta data que ele come\u00e7ou a ser ainda mais conhecido. Hoje vem nas Hist\u00f3rias da Literatura, vem na Enciclop\u00e9dia, vem nas Antologias, chegou ao Brasil&#8230;<br>O encontro com este poeta foi de facto uma das coisas mais bonitas que aconteceu na minha vida&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Q.M. &#8211; O jornal acabou de nascer e foi baptizado com o nome de Quebra-Mar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Quebra-Mar? Quebra-Mar&#8230; esse nome \u00e9 bonito!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Q.M.- Como pensa que seria a grafia correcta: a palavra unida ou separada?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Hum, isso agora \u00e9 que eu n\u00e3o sei. Vamos ver o dicion\u00e1rio &#8230; um algarvio, natural de Faro, Jos\u00e9 Pedro Machado, vamos l\u00e1 ver como \u00e9 que ele escreve&#8230; os livros s\u00e3o para isso&#8230; e n\u00f3s quando n\u00e3o sabemos vamos procurar saber. Isto \u00e9 uma coisa que eu costumo dizer a voc\u00eas, sempre. Primeiro, antes de perguntar, v\u00e3o voc\u00eas tentar responder\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nelson &#8211;<\/strong> N\u00f3s achamos que deveria aparecer tudo junto&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> &#8230;a escola \u00e9 aprender. Querem ouvir uma coisa bonita? Vou dar-lhes uma defini\u00e7\u00e3o de escola feita pelo poeta <strong>Aleixo<\/strong>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;<strong>&#8230;E assim, li\u00e7\u00e3o por li\u00e7\u00e3o,<br>O que aos poucos aprendemos<br>E outros a outros daremos,<br>E outros a outros dar\u00e3o<\/strong>&#8220;<br><br>A escola \u00e9 isto, \u00e9 esta continuidade&#8230;<br>Eu, por exemplo, agora tenho d\u00favidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resposta&#8230; vou ver quebra-mar, procurar no dicion\u00e1rio&#8230; quebra, quebra &#8230; quebrantar&#8230; que-branto&#8230;, quebra-rocha, quebra-pedra&#8230; olha n\u00e3o se encontra! Quebra-cabe\u00e7a&#8230;, quebra-mar, n\u00e3o encontro&#8230; ah, est\u00e1 aqui. Ora c\u00e1 est\u00e1, pronto! <strong>Quebra-Mar<\/strong>!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Q.M.- O que pensa do jornal de escola?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Olha, eu acho que tem muita piada porque quando eu andava no 5\u00b0ano do Liceu, meteu-se-me na cabe\u00e7a fazer um jornal que era feito neste papel quadriculado que voc\u00eas usam na Matem\u00e1tica e chamei-lhe &#8220;O Sol&#8221;. Nesse tempo n\u00e3o t\u00ednhamos canetas a tinta&#8230; era uma pena. Compr\u00e1vamos anilinas, eu gostava de anilina roxa que dissolvia na \u00e1gua e isso \u00e9 que era a tinta que era utilizada na caneta com aparo.<br>Alguns acharam piada e inventaram outro jornal &#8220;A Terra&#8221;, outro arranjou &#8220;A Lua&#8221;, depois foi o Sistema solar todo! Mostr\u00e1vamos tudo ao professor de Portugu\u00eas, prof. Pires de Lima&#8230;<br>De modo que acho muito engra\u00e7ado, eu vou ver se escrevo uma coizinha para voc\u00eas, eu vou fazer um escrito zinho e se puder vou l\u00e1 levar \u00e0 escola. Ir aquela escola sempre foi uma chatice&#8230;sabem porqu\u00ea? Aquela entrada, .. com as obras. Agora j\u00e1 entram pela frente? Ainda est\u00e3o a fazer as obras?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nelson &#8211;<\/strong> As ruas j\u00e1 est\u00e3o algumas arranjadas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J.M. &#8211;<\/strong> Eu vou ver se consigo fazer a minha gin\u00e1stica e se vou l\u00e1. Vou l\u00e1 levar um escritozinho sobre o que \u00e9 uma escola, o que eu acho que \u00e9, lembrar esta brincadeira da escola que \u00e9 onde se aprende..<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E com estas palavras, a equipa de reportagem despediu-se deste mestre feito da simplicidade da palavra e do saber. Neste artigo tivemos o cuidado de manter o tom coloquial e um pouco divagador que caracteriza a sua palavra .<br><br><strong>\u25a0 S\u00f3nia 8\u00b0A, Nelson e Tiago 8\u00b0C<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quebra-Mar &#8211; N\u00ba 1 &#8211; Dezembro de 1997 &#8211; Escola E. B. 2\/3 Dr. Joaquim Magalh\u00e3es<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator aligncenter has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><a href=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Quebra-Mar-n1-paginas1a5de16-1997.pdf\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"367\" src=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1024x367.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-257\" srcset=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1024x367.jpg 1024w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-300x107.jpg 300w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-768x275.jpg 768w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_-1536x550.jpg 1536w, https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/quebra-mar1-capaepag3a5_.jpg 1834w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Clique nas imagens acima para ver a entrevista num ficheiro pdf (com as p\u00e1ginas 1 a 5 de 16 do QM1)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A equipa dos entrevistadores do Quebra-Mar, desta vez formada pela S\u00f3nia (8\u00b0A), pelo Nelson e pelo Tiago (8\u00b0C) estiveram um dia destes em casa do Dr. Joaquim Magalh\u00e3es, que \u00e9 o patrono desta escola e pessoa muit\u00edssimo estimada e querida entre n\u00f3s, sempre igual a si pr\u00f3prio, conforme o conhecemos j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o alguns anitos<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/2019\/04\/17\/entrevista-a-joaquim-magalhaes\/\" class=\"more-link themebutton\">Read More<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,15],"tags":[],"class_list":["post-249","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-14","category-quebra-mar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=249"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":261,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/249\/revisions\/261"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}