{"id":179,"date":"2019-04-25T13:41:00","date_gmt":"2019-04-25T13:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/?p=179"},"modified":"2025-08-16T23:57:32","modified_gmt":"2025-08-16T23:57:32","slug":"a-cronica-do-doutor-viriato-reunir-a-campanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bibliotecastc.pt\/acoteiasxxi\/2019\/04\/25\/a-cronica-do-doutor-viriato-reunir-a-campanha\/","title":{"rendered":"A cr\u00f3nica do Doutor Viriato. Reunir a Campanha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Republicamos, aqui, um dos artigos da etc 2 (2013) que refletia sobre a cria\u00e7\u00e3o dos megaagrupamantos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O meu pai, paz \u00e0 sua alma, era um homem do norte. Nasci no Algarve mas o meu pai deixou-me no nome \u2013 Viriato \u2013 a marca beir\u00e3. N\u00e3o a nego mas o corpo carente de calor e mar lembra-me a todo o momento a minha origem \u2013 o Sul. Vivi e formei-me na capital e iniciei a minha vida de professor nos sub\u00farbios do Rossio. Nunca me habituei \u00e0s bichas, aos gangues ou ao cheiro das bifanas. Voltei ao Sul na d\u00e9cada de noventa do s\u00e9culo passado e aprendi o tempo outra vez: os segundos n\u00e3o existem; os minutos s\u00e3o como a moeda fraca de pa\u00edses long\u00ednquos \u2013 fazemos as contas por alto; as horas s\u00e3o longas no inverno e brev\u00edssimas no ver\u00e3o; os meses s\u00e3o de dois tipos, os bons, a maioria, e os maus, Fevereiro e pouco mais; os anos s\u00e3o contados a partir do pr\u00f3ximo ver\u00e3o. Enquanto dava umas aulas e reaprendia estas evid\u00eancias, professores doutorados em universidades p\u00fablicas e pol\u00edticos mestrados em privadas, foram laboriosamente construindo um labir\u00edntico e burocr\u00e1tico pesadelo sustentado por alucinadas teses baseadas em maus resumos de teorias do s\u00e9culo dezanove a que pomposamente chamaram de Sistema Educativo. Os autores desta insana obra contaram com o apoio, activo ou por omiss\u00e3o, do igualmente alucinado Sistema Legal e, para calar de vez qualquer objec\u00e7\u00e3o racional, criaram uma variante lingu\u00edstica, herdada do politicamente correcto, que tomou o nome de \u201ceduqu\u00eas\u201d. O \u201ceduqu\u00eas\u201d constituiu-se como uma aut\u00eantica cultura e n\u00e3o se limitou, como o \u201ceconom\u00eas\u201d, \u00e0 adop\u00e7\u00e3o de anglicismos e galicismos e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de tru\u00edsmos \u2013 subverteu os conceitos j\u00e1 consolidados: saber equivale a opini\u00e3o; ensino passou a sensibiliza\u00e7\u00e3o; autoridade significa autoritarismo; homem \u00e9 menino; menino \u00e9 crian\u00e7a e respeito \u00e9 uma sauda\u00e7\u00e3o rap. As escolas, inundadas de despachos, normas e portarias l\u00e1 foram \u201cimplementando\u201d a nova \u201ccultura\u201d da forma que j\u00e1 lhes \u00e9 habitual: com iguais doses de boas inten\u00e7\u00f5es e inefic\u00e1cia. E ainda bem, pois se aos mandantes as boas inten\u00e7\u00f5es proporcionaram um sono descansado, a mim a sua inefic\u00e1cia proporcionou-me um fim de carreira com alguma sanidade mental. Vai longa e sombria a introdu\u00e7\u00e3o mas o motivo desta cr\u00f3nica \u00e9 de j\u00fabilo: <strong>o agrupamento da Tom\u00e1s Cabreira com escolas circundantes<\/strong>. Os que me conhecem estranhar\u00e3o esta alegria. \u00bfPois n\u00e3o dizia serem os \u201cmegaagrupamentos\u201d mais uma forma de transformar a autonomia em depend\u00eancia e seguidismo? \u00bfN\u00e3o dizia que, ao for\u00e7arem a mobilidade dos docentes pelos v\u00e1rios ciclos de ensino, eram mais um passo na cria\u00e7\u00e3o do professor\/funcion\u00e1rio ao qual apenas compete saber ensinar o que n\u00e3o sabe? Passo a explicar! Continuo a pensar isso e muito mais mas, recentemente, ao ver no mapa a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do agrupamento Tom\u00e1s Cabreira apercebi-me de um facto de grande import\u00e2ncia geoestrat\u00e9gica:&nbsp;<strong>\u00e9 o agrupamento mais a Sul de Portugal continental!<\/strong>&nbsp;Foi uma aut\u00eantica epifania. Aquele pequeno territ\u00f3rio com terras, sapal e ilhas seria a ponta da lan\u00e7a do&nbsp;<em>Meridiem Maximo<\/em>&nbsp;(O Grande Sul). Daqui pod\u00edamos partir para a reconstru\u00e7\u00e3o da grande na\u00e7\u00e3o C\u00f3nia*.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><em>* Os c\u00f3nios foram os habitantes das actuais regi\u00f5es do Algarve e Baixo Alentejo, em data anterior ao s\u00e9culo VIII a.C., at\u00e9 serem integrados na prov\u00edncia romana primeiro da Hisp\u00e2nia Ulterior e posteriormente da Lusit\u00e2nia. V\u00e1rios vest\u00edgios arqueol\u00f3gicos descobertos no Baixo Alentejo e no Algarve testemunham a exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o detentora de uma avan\u00e7ada escrita semisilab\u00e1ria adoptada antes do contacto com os fen\u00edcios.<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Sem o querer o minist\u00e9rio do ensino\/ aprendizagem fornecia-nos a semente da verdadeira autonomia. Iniciei de imediato os contactos com verdadeiros Algarvios e turistas amigos do Sul e encet\u00e1mos a elabora\u00e7\u00e3o de um documento fundador de um novo paradigma cultural e educacional. Este documento, a apresentar a toda a comunidade educativa, est\u00e1 em elabora\u00e7\u00e3o mas n\u00e3o resisto a, de imediato, divulgar algumas das nossas propostas. Em primeiro lugar, o nome. Embora apreciemos o not\u00e1vel tavirense que foi Tom\u00e1s Cabreira, consideramos que devemos homenagear a escola que nos coloca mais a sul que Sagres: a escola da Culatra. Assim, propomos o nome de&nbsp;<strong>Agrupamento da Culatra e Norte Adjacente<\/strong>. A sede do agrupamento ser\u00e1, simbolicamente, atribu\u00edda \u00e0 escola da Culatra onde ser\u00e1 colocada a bandeira do agrupamento. Na bandeira, a criar, dever\u00e1 figurar um s\u00edmbolo inequ\u00edvoco da nossa identidade. O assunto est\u00e1 em debate mas a&nbsp;<strong>mucharrinha&nbsp;<\/strong>lidera as prefer\u00eancias. Em segundo lugar o territ\u00f3rio. Embora fosse pac\u00edfico delimitar o per\u00edmetro \u2013 a poente o largo de S. Francisco, a norte a rua de Mouzinho de Albuquerque, a nascente uma rua que ningu\u00e9m sabia o nome ali pr\u00f3 Chal\u00e9 das Canas e a sul o Farol \u2013 foi mais problem\u00e1tico o m\u00e9todo de assinalar a fronteira. A proposta de constru\u00e7\u00e3o de uma pali\u00e7ada foi recusada por ser pouco pr\u00e1tica. Em estudo. Em terceiro lugar, a Constitui\u00e7\u00e3o. Numa primeira fase este documento estar\u00e1 contido no Projecto Educativo que, pela primeira vez, ser\u00e1 um documento relevante. Com o aprofundar da autonomia poderemos, mais tarde, aspirar a outros voos. As propostas em cima da mesa incluem imediatas altera\u00e7\u00f5es aos curricula das diferentes disciplinas com a inclus\u00e3o de conte\u00fados relevantes para uma verdadeira cultura sulista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/acoteiaxxi.agr-tc.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/viriato-imagem.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-140\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br>Durante o pr\u00f3ximo ano lectivo imp\u00f5e-se um intenso trabalho por parte dos professores mais experientes e qualificados na cria\u00e7\u00e3o e certifica\u00e7\u00e3o de novas disciplinas que, de forma pragm\u00e1tica, recolham os saberes informais que s\u00e3o a ancestral cultura e sustento das popula\u00e7\u00f5es que o agrupamento dever\u00e1 servir: o Ingl\u00eas de Praia, o Alem\u00e3o de Esplanada, a Arte da Redinha, a Tecnologia da Murejona, a Pesca Desportiva, o Mergulho e todas as variantes do Surf, foram algumas das propostas. Em quarto lugar surge o C\u00f3digo Civil que ser\u00e1, temporariamente, contido no Regulamento Interno. Diz o bom senso que a natureza detalhada e pr\u00e1tica deste documento imp\u00f5e que a sua execu\u00e7\u00e3o deve ser efectuada por quem est\u00e1 no terreno e conhece de perto as actividades que regulamenta. Assim, decidimos, neste cap\u00edtulo, chamar a aten\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o que o elabora \u2013 o Conselho Geral. Al\u00e9m dos professores, funcion\u00e1rios, alunos, pais e representante aut\u00e1rquico, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia incluir representantes da Comunidade Local capazes de entender e melhorar esta nova realidade. Parece-nos indispens\u00e1vel a presen\u00e7a do Gin\u00e1sio Clube Naval, a Associa\u00e7\u00e3o de Viveiristas e Mariscadores da Ria Formosa, a Pol\u00edcia Mar\u00edtima, os Transportes Fluviais da Ria Formosa (h\u00e1 que estabelecer um passe para estudantes) e o Clube dos Amadores de Pesca de Faro entre outros. V\u00e1rios Algarvios e turistas residentes ainda no activo e presentes nas reuni\u00f5es disponibilizaram-se para integrar uma lista candidata ao novo Conselho Geral. Neste \u00f3rg\u00e3o, o \u00fanico de elei\u00e7\u00e3o nas escolas, pugnar\u00e3o para que as ideias aqui expostas sejam concretizadas. Apenas alguns exemplos de assuntos a abordar no pr\u00f3ximo Regulamento Interno: \u2013 acabar de vez com a denomina\u00e7\u00e3o \u201cturma\u201d. O termo aplicava-se originalmente \u00e0s unidades militares romanas constitu\u00eddas por trinta cavaleiros. Em oposi\u00e7\u00e3o a este marcial rigor num\u00e9rico preferimos a \u201c<strong>companha<\/strong>\u201d. Aqui no Sul chamamos companha \u00e0 tripula\u00e7\u00e3o de um barco. O seu n\u00famero depende do tamanho da embarca\u00e7\u00e3o e do tipo de faina. Ora a\u00ed est\u00e1;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;\u2013 o calend\u00e1rio escolar dever\u00e1 ter em conta a temperatura \u2013 acima dos trinta graus as actividades lectivas ser\u00e3o realizadas na Culatra (a praia \u00e9 muito extensa e acolher\u00e1 com facilidade todo o agrupamento); \u2013 a lista de produtos presentes nas papelarias escolares dever\u00e1 incluir fatos de banho, toalhas de praia, barbatanas, isco fresco e outros auxiliares did\u00e1cticos necess\u00e1rios \u00e0 nova realidade escolar; \u2013 a ementa das cantinas escolares deve ser, al\u00e9m de equilibrada para o corpo f\u00edsico, um alimento para o esp\u00edrito sulista. Assim imp\u00f5e-se a inclus\u00e3o regular de produtos do nosso espa\u00e7o territorial: o lingueir\u00e3o, a am\u00eaijoa, a conquilha e o berbig\u00e3o (nos meses com r), o choco, a lula, a carcanhola, a boca e, claro, a mucharrinha. Despe\u00e7o-me com amizade e termino reafirmando aquilo em que convictamente acredito: o Futuro come\u00e7a no pr\u00f3ximo Ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>DOUTOR VIRIATO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Doutor<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Republicamos, aqui, um dos artigos da etc 2 (2013) que refletia sobre a cria\u00e7\u00e3o dos megaagrupamantos. O meu pai, paz \u00e0 sua alma, era um homem do norte. Nasci no Algarve mas o meu pai deixou-me no nome \u2013 Viriato \u2013 a marca beir\u00e3. 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